É tão cansativo ter que falar o óbvio.

Quando falamos de literatura erótica, é comum que o nosso pensamento seja instantaneamente levado para a obra mais popular do gênero: Cinquenta Tons de Cinza, da E.L. James. Ou para a mais atual febre sofrência que estourou por causa do filme da Netflix, 365 DNI. 

Cinquenta Tons de Cinza, apesar de não ser nem de perto a melhor obra do gênero, é a que dá o tom (haha) do que as pessoas classificam, ou até mesmo esperam dos livros eróticos. É comum os leitores pensarem que o BDSM seja o foco dessas histórias; que CEOs gostosos praticam BDSM em segredo e querem levar a mocinha inocente para o caminho das palmadas recreativas sem nenhum apego emocional etc., mas acabam se apaixonando e… Bom, ficam apenas com o plug anal em forma de rabo de coelho.

Ou então homens macho alfa poderosos do crime que sequestram a mocinha e ela se apaixona por ele depois de alguns momentos calientes — que podem muito bem beirar o criminoso e ter um certo ar de Síndrome de Estocolmo. Mas… não é só isso. 

Não negamos que, quando pensávamos ser esse tipo de livro que formava o nicho erótico, o assunto não nos atraia tanto. Até termos contato com livros do gênero, os quais muitas vezes sequer eram promovidos como tal (por causa do estigma negativo). Na verdade, a literatura erótica (ou hot, se você preferir) está presente em romcom, thrillers, fantasia, paranormal, drama… ou seja, tem safadeza para todos os gostos. 

A questão é que, depois de descobrir esse mundão pega fogo cabaré, encontramos diversos livros que  rapidamente se tornaram nossos favoritos. Livros que, por incrível que pareça nessa sua cabecinha preconceituosa, são bem escritos, com personagens femininas independentes e fortes e que muitas vezes chegam a abordar temas sérios e importantes. A parte erótica da coisa ainda deixa bem claro que as personagens são donas de si, de seus corpos e desejos. 

Quer mais, @? 

Claro, existem livros com passagens e cenários problemáticos. Assuntos sérios abordados de maneira descuidada e que acabam pesando para o lado nope da coisa. Mas é aí que mora a diferença entre uma boa autora e uma autora desavisada: até mesmo o dark romance (nicho que trata desses temas mais pesados), podem mostrar uma visão empoderadora. Basta saber como trabalhar em torno disso. 

Também é super válido lembrar que são obras de ficção e que, de longe abordam o mundo real — uma mulher ter múltiplos orgasmos logo quando perde a virgindade? Homem que sabe onde fica o clitóris e sabe/gosta de fazer oral? Não é porque a leitura de um livro em que o personagem masculino é um líder de gangue de motoqueiros que estamos de acordo e queremos um para nossa vida hm, ou então que é super okay um cara sequestrar a mocinha ou agir como um stalker. 

É tipo… não é porque você gosta de algo duvidoso ou questionável nos seus livros que significa que você vai praticar isso no seu dia a dia ou na sua vida de forma geral. Se você gosta de consumir conteúdo sobre serial killers, isso te transforma em um? Se a resposta aqui for sim, por favor procure ajuda psiquiátrica o quanto antes, ok?

Em pleno 2021 é muito difícil quando vemos alguém tratando o tema com desdém, especialmente se for mulher e que consome outros tipos de literatura consideradas “femininas” (que por si só já são vistas com preconceito, porque né…). Agindo como se fossem superiores porque não gostam ou não consomem o tema. 

Gente, se você não gosta, não precisa desdenhar não é mesmo? Muito menos consumir. Você não gostar de literatura erótica, de livros que sejam um pouco mais explícitos no sentido sexual não te faz superior, muito pelo contrário, te deixa esnobe. Especialmente se você é autore e também está tentando conquistar o seu espaço no mercado literária, que vamos combinar, não é fácil. 

É ok não gostar, é ok preferir o consumo de outros tipos de livros. Mas é ainda mais ok conhecer antes de sair falando mal. Ou melhor ainda, respeitar o gosto alheio e perceber que é apenas isso… gosto de consumo para distração e preencher vazios. Respeitar, ou até mesmo criticar, se lhe convém, mas sem rebaixar. Difícil, eu sei. Mas é que… você não é melhor por não gostar de literatura erótica não. É tão cansativo ter que falar o óbvio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s