Descansa militante?

Fazemos parte da comunidade literária na internet já tem alguns anos e quando chegamos aqui era tudo mato. A proposta era dividir o amor pelos livros, não importando o número de seguidores, a quantidade de livros na estante, assim como não havia esta necessidade incansável de querer chamar atenção com opiniões “polêmicas” e banais. 

Por conta disso e de diversas conversas que tivemos, não só entre nós, como com pessoas que também fizeram/fazem parte da comunidade (oi Ana/@relendopaginas <3) na mesma época, percebemos que temos uma grande (quase insuportável) vontade de desabafar.

A comunidade literária YA mudou muito desde que Meg Cabot e Stephenie Meyer dominavam as prateleiras das livrarias… e isso é ótimo! Poder fazer parte desse mundo e ver como ele evoluiu é incrível. O que não é incrível é ver como os novos leitores se comportam nas redes sociais. Sério gente, vocês não estão disputando a atenção da professora na escola, ok? A sua crítica super “diferentona” vai trazer um total de zero estrelinhas na testa. A verdade é que… tudo o que muita gente fala é tão profundo quanto um prato raso. 🙂 

Não que pensemos que para falar de livro precisa ser algo profundo e cabeça, pelo contrário. A real é que há uma necessidade absurda de militar/hitar em cima de praticamente todos os assuntos e por conta dessa necessidade, uma grande falta de sentar para pensar, ou até mesmo de um estudo antes de abrir a boca nas redes sociais. Vamos parar de falar coisas sem fundamento só pelo simples prazer de falar algo, e pela necessidade de fazer bonito? 🙂

Um grande exemplo é a literatura YA. É importante pontuar que nem todos os conteúdos lançados entre 2000 e 2010 envelheceram da melhor forma. Crepúsculo ilustra muito bem esse fato, a série abriu as portas para a literatura YA expandir. Mas com o passar dos anos, questões muito duvidosas e personagens com atitudes que beiram o doentio podem ser observadas.

No entanto, de que adianta apenas meter o pau nessas questões (que, de novo, são reais) sem parar para pensar no contexto no qual o livro foi escrito; no momento que isso aconteceu e acima de tudo, ignorar a importância que ele teve para a literatura YA? A crítica é importante, a crítica cega e sem um pouco de aprofundamento, é burrice. 

Por isso, queremos deixar claro: fazer uma crítica a um livro, apontar situações preocupantes não é um problema — pelo contrário! 

Para tentar ilustrar um pouco do que queremos dizer, vamos usar a literatura erótica como exemplo. Melhor ainda, vamos traçar um paralelo entre literatura erótica de sub/dome (submissive e dominante) e a militância que já vimos acontecer em relação a essa temática. 

Primeiro vamos deixar claro uma coisa: a literatura erótica é um nicho muito amplo que lida com fantasias sexuais. Ou seja, temas que podem não ser do seu agrado, podem gerar gatilhos e que muitas pessoas tendem a ler e torcer o nariz porque não se identificam com o que a história aborda — e gente, vamos pensar em conjunto aqui, se você não curte livro com sexo explícito e que tenha esse elemento como fator central, você vai fazer essa leitura por quê?

Caso queira conhecer, leia com a cabeça aberta e saiba que o livro está lidando com fantasias sexuais e, às vezes, opiniões diferentes das suas. O ponto chave aqui é: saiba lidar com opiniões diferentes das suas sem precisar desqualificá-las apenas porque você está contrariadinhe. 

Retomando haha

Vamos pegar um assunto polêmico que é a dominância e submissão, que acontece em 50 Tons de Cinza e traçaremos um paralelo com os livros da autora Sierra Simone, que trabalha muito com essa temática (seja abordando o BDSM ou apenas sub/dome).  

No caso, vamos falar do primeiro volume da trilogia New Camelot, American Queen, cujas personagens principais e narradoras apresentam muitas semelhanças: inocentes, virginais, submissas que se envolvem com homens dominantes e poderosos em um cenário BDSM. 

Tanto a Greer, quanto a Anastasia acabam tornando-se submissas a homens poderosos em um relacionamento regado à sexo. No entanto, é aí que as semelhanças acabam. 

Apesar de um tanto inexperiente, a Greer desde o primeiro momento sabe o que quer e o que gosta. Ela quer ser submissa. Já a Anastasia, ao conhecer o Christian Grey fica extremamente relutante e, apesar de gostar de algumas coisas, mostra que aquilo ali não é exatamente a praia dela, que não está confortável.

Obviamente, 50 Tons não vai ser o único livro com diversos problemas e sim, tem autoras que acabam ultrapassando a fantasia e chegando em um nível um tanto quanto… incômodo ou até preocupante.

Mas a questão toda e o motivo de traçarmos esses paralelos é apontar a linha tênue entre ler um livro do gênero e apontar os defeitos e questões que podem ser consideradas abusivas com realizar a leitura seja de 50 Tons, seja de um erótico com a temática sub/dome e apontar o gênero como um todo como problemático, pois a mulher não deve ser submissa e sim realizar o que quer, e discursos que vocês sabem do que estou falando. 

A questão aqui é: a mulher pode ter direito a ser o que quiser, seja na cama, seja na vida dela. Assim como também, existem as fantasias sexuais ou até mesmo que a mulher não se considere ou não queira ser submissa, mas gosta de ler sobre.

A militância, a luta por diversas causas é sim importante. E muito. As vozes que sofrem opressão precisam SIM serem ouvidas e muitas coisas precisam mudar. 

No entanto, é também preciso ter uma base para saber do que está falando, seja pesquisando sobre o assunto ou de observar com cuidado aquilo que critica ao invés de sair por aí falando o que quer apenas para poder hitar ou “fazer bonito na internet”. Pois além de muitas vezes acabar falando besteira, também pode acabar diminuindo as causas pelas quais quer defender e lutar por. Já pensou nisso?

E vamos lembrar que, se você não tem o que dizer sobre o assunto ou não se sente informado/seguro o suficiente para opinar, está tudo bem ficar em silêncio, aprender mais e aguardar a próxima rodada. Militar é muito mais do que fazer bonito na internet, é valorizar uma causa importante e dar voz aos oprimidos. 


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