Aleatoriedades

Vamos falar sobre a problematização dos contos de fadas?

Recentemente, um assunto bastante comentando na internet — especialmente quando falamos sobre os filmes clássicos (ou nem tão clássicos assim) da Disney — é a problematização dos contos de fadas. Necrofilia, Síndrome de Estocolmo, entre outros são sempre espalhados nas redes sociais e em alguns sites da internet, o que gera o maior furdúncio (oi, Treta News), choque e discussões.

Realmente, como muito do que é divulgado, eles parecem fazer sentido assim à primeira vista, especialmente se vemos essas histórias por uma única (e rasa) análise, sem levar em conta alguns contextos importantes de época, elementos que formam os contos de fadas e até mesmo as mensagens que eles querem passar. A verdade é que chamar a Branca de Neve ou Bela Adormecida de contos que propagam a necrofilia é apenas a ponta do iceberg. E é sobre isso que viemos conversar com vocês.

Vamos usar dois contos como exemplo para a reflexão desse post: A Bela e a Fera (que está super em alta por causa do filme) e Chapeuzinho Vermelho.

Se colocarmos as duas histórias lado a lado (qualquer que seja a versão delas), existem duas vertentes diferentes: os de alerta, no caso da Chapeuzinho Vermelho, são mais pesados mesmo nas versões mais leves e positivas dele e que ensinam pelo modo de fazer a criança enxergar de forma pura as ameaças do mundo (não devemos confiar em estranhos, desviar dos caminhos ensinados pelos nossos pais senão coisas muito ruins podem acontecer); e os que apelam mais para a moral, como A Bela e a Fera, que com uma história mais bonitinha, ensina algo positivo para as crianças (no caso, a perceber que a aparência não é tudo que importa nessa vida, que não devemos julgar as pessoas pela aparência e por aí vai).

Ou seja, contos de fadas, mesmo fazendo parte de um gênero possuem diversas vertentes e querem ensinar diferentes coisas ao seu público alvo: crianças.

Agora, vamos segurar um pouco as pontas em relação ao público e fazer uma análise sobre a Síndrome de Estocolmo que todo mundo adora apontar n’A Bela e a Fera? Espera um pouquinho que vamos desconstruir essa teoria que surgiu nos tempos atuais (porque sim, a coisa nada mais é que uma teoria).

Em primeiro lugar, precisamos lembrar de novo: A Bela e A Fera é um conto de fadas. Ou seja, possui elementos mágicos nele, no caso pessoas transformadas em animais e objetos falantes para explicar que deve-se preocupar com muito mais do que a superfície e a Bela, que é uma personagem toda diferentona que sofre preconceito pelo que é, acaba se apaixonando pela Fera após não só tocar o lado mais sensível — e já arrependido — dele, como também no caso, acabou ficando prisioneira no castelo dele. Há magia nesse conto. Magia. Há mesmo de fazer uma análise psicológica em um conto cuja grande parte central é a magia, ou no caso, é tão absurdo a Bela ter se apaixonado pela Fera e ela ter sido prisioneira dele ser apenas um detalhe?

Sua resposta ainda é sim? Ainda existe a necessidade de analisar psicologicamente essa personagem e afirmar que ela tem Síndrome de Estocolmo? Ok, vamos falar então sobre o fato dela conversar com objetos e com um animal. Se é possível ela ter a Síndrome mesmo em um mundo repleto de magia — que de novo, tem o foco em outra coisa além dela ter sido feita prisioneira —, talvez seja possível que ela seja esquizofrênica? Afinal, no mundo real não existe magia e muito menos objetos e animais falantes. Vamos parar para pensar, por que a Síndrome de Estocolmo faria sentido e a esquizofrenia simplesmente não casa com a história? Por causa da magia, porque aquele universo as regras são BEM diferentes do nosso.

Ah, mas larga de falar besteira. Mesmo com a magia, ela teve sim Síndrome de Estocolmo, é óbvio.

Ok, então vamos falar sobre o ano que A Bela e a Fera foi escrito, o contexto no qual o conto foi escrito (de novo) e sobre a Síndrome de Estocolmo em si.

Embora tenham algumas versões e não se sabe exatamente de quando é a história, ela data de mais ou menos lá no século XVIII. Ou seja, tem alguns séculos.

A Síndrome de Estocolmo, por outro lado, passou a ser um distúrbio estudado na década de 70, quando depois de um assalto, na cidade de Estocolmo, as vítimas criaram laços e passaram a defender os assaltantes após passar alguns dias em cárcere privado. Alguma das causas para a própria síndrome é que ela passa a a ter uma identificação emocional com o criminoso em um modo de defesa por medo de retaliação e/ou sofrer algum ato de violência.

Em nenhum momento, especialmente na versão favorita de ser criticada, a da Disney, a Bela passa a se sentir emocionalmente ligada à Fera por medo. Pelo contrário, ela o enfrenta de forma constante (especialmente na versão nova) e tudo muda quando ele mostra gentileza, salvando a vida dela depois de mandá-la embora. Mas ok, até então, a mente humana é algo complicada e nem todo mundo têm os mesmos sintomas e mais, um pequeno gesto de gentileza geralmente é ampliado pela vítima.

Faz sentido? Sim. Mas e aí, o que nós queremos dizer apontando que sim, a Bela tem sintomas de Síndrome do Estocolmo?

É bem simples, na realidade. Uma síndrome nada mais é que um conjunto de sintomas, por isso nem sempre é fácil diagnosticar um paciente com uma e acima de tudo, você pode ter um ou mais sintomas de uma síndrome ou não necessariamente tê-la.

Mas para sermos bem sinceras, o contexto do conto tem uma explicação muito mais simples: na época que ele foi escrito, a Síndrome de Estocolmo ainda não havia sido diagnosticada em ninguém, não “existia”. Como a Bela poderia possuir um distúrbio que não existia?

Ah, mas daí não precisa ter o diagnóstico médico para ter uma doença. Uma pessoa tinha esquizofrenia naquela época e era considerada louca. Poderia ser o mesmo caso.

Poderia. Mas, vamos lembrar de novo: por que alguém escreveria (ou contaria) uma história para ensinar lição de moral para uma criança, se ela simplesmente fosse uma mentira? Porque é exatamente isso que acontece, se a gente afirmar que a Bela sofre de Síndrome de Estocolmo. O motivo da história existir em primeiro lugar, sequer existiria.

Os contos de fadas possuem sim um background pesado, que muitas vezes beiravam histórias de terror ao invés de histórias fofas que são as que conhecemos, seja nas mãos da Disney ou não. O felizes para sempre nem sempre existiam e caso o fizessem, as personagens principais de longe eram tão boazinhas quanto apareciam (afinal, a Branca de Neve fez a Bruxa Má dançar em brasas até morrer). Há questões de necrofilia e estupro? Afinal, o rei engravidou a Bela Adormecida enquanto ela dormia.

Sim, mas novamente, o contexto de todas essas histórias vão muito mais além do que os atos que elas mostram. A Disney pode ter amenizado ainda mais os contos, mas certamente, isso não é um caso que o problema está na história em si, e sim nos olhos ignorantes de quem vê.

Acima de tudo, vamos lembrar que nessas mesmas histórias existem objetos falantes/pessoas enfeitiçadas, fadas, espelhos mágicos falantes e muitos elementos fantásticos que não fazem parte do mundo real em que vivemos. Agora, a gente pergunta: faz sentido analisar as personagens dos contos de fadas de forma séria como se elas fossem seres humanos reais? Faz sentido dizer que o príncipe encantado beijou a princesa teoricamente morta quando o mundo em que eles vivem é repleto de magia? E acima de tudo, faz sentido a Bela ter Síndrome de Estocolmo?

Analisar os contos de fadas é divertido. Descobrir que Chapeuzinho Vermelho fala sobre pedofilia, canibalismo etc, deixa a história muito mais interessante para os olhos curiosos de alguns adultos. Por isso, é possível encontrar diversos livros (como A Psicanálise dos Contos de Fadas e Fadas no Divã) que fazem justamente isso. Mas eles analisam e contextualizam essas histórias de forma séria e não apenas as problematizam.

Como dito anteriormente, os contos de fadas foram criados na época em que a televisão não existia e muito menos propagandas alertando os pais e crianças que o mundo era repleto de pessoas com más intenções. Foi preciso encontrar uma forma de fazer esse alerta e a maneira mais popular era com histórias fantásticas que abordavam assuntos reais, dando “lições de segurança” ou “lições de moral” como é o caso da Bela e a Fera. Esse tipo de história existe até hoje, os próprios livros lidos pela maioria dos jovens traz alguma mensagem importante por trás dos heróis, a diferença é que traz temas mais atuais. Harry Potter, por exemplo, aborda de forma escancarada os maus tratos sofridos por crianças no relacionamento do Harry com os tios.

Problematizar assuntos pertinentes é totalmente incentivado e visto de forma positiva se você o fizer de forma sensata. Ao invés de falar que a Bela e a Fera transforma a Síndrome de Estocolmo em algo glamuroso, por que não discutir o que é a de fato essa Síndrome? Alertar sobre ela e dar exemplos reais? Se aproveitar do sucesso de algo para falar coisas negativas sobre é muito fácil, é simples, mas o importante mesmo, que seria propagar os malefícios que a Síndrome ou o que quer que seja, traz para a vida de quem sofre com aquilo é muito mais interessante e benevolente. Não banalize assuntos sérios com opiniões propagadas por outras pessoas, pesquise sobre o assunto abordado antes de falar por aí sobre o que você talvez não tenha domínio.

Não é preciso negativar algo que grande parte da população gosta para atrair a atenção das pessoas sobre um assunto delicado ou menos recorrente, é possível gostar sim de algo, ver suas peculiaridades e ainda assim adicionar uma opinião de qualidade sobre. Vamos pesquisar, estudar e ponderar sobre aquilo que nos incomoda antes de sair por aí espalhando que determinado tema é inadequado para a sociedade, já as vezes o assunto só incomoda a você – por algum motivo mal resolvido na sua vida talvez – só que muita gente vai sair por aí proliferando essa opinião, porque é isso que a internet faz, prolifera informações equivocadas, tornando as pessoas em máquinas de repetição ao invés de pensadoras.

giphy

Fonte: Sociologia do ImaginárioRevista Galileu / Exame / Infoescola

ASSINATURAFLAREN

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