Aleatoriedades

O que é ser perfeccionista

Quando paramos para pensar em pessoas perfeccionistas, muitas vezes os adjetivos que vêm na nossa mente são derivados de chatx, especialmente quando se para pra pensar no que é trabalhar com alguém perfeccionista se você não o é…

Durante muito tempo, sempre aprendi que uma pessoa perfeccionista era aquela que queria tudo perfeito e certinho; que é minuciosa e organizada; que sempre tem boas notas, não é bagunceira, que quer as coisas do seu jeito etc. Em suma, uma visão toda estereotipada de alguém perfeccionista.
A realidade é que a mente humana não funciona de maneira igual para todo o mundo, por isso, conforme o tempo passava, descobri que perfeccionista ia muito além daquilo que sempre ouvi falar. Na realidade, existe um tipo de perfeccionista um tanto diferente: o auto-sabotador.

Em outras palavras, eu.

Nunca fui uma pessoa certinha. Não era uma aluna exemplar (pelo contrário), sou extremamente bagunceira, nunca faço as coisas com muito cuidado e acima de tudo, sempre fui meio “largadona”. No ballet, era uma das piores da turma e as que mais brincavam em aula e não levavam a coisa a sério; na escola, eu não ligava nem um pouco para as matérias de exatas. Estudar? Era algo que você nunca me veria fazendo. Eu ia bem nas matérias que tinha muita aptidão porque era algo natural para mim, então, não tinha necessidade de estudar e ia bem mesmo assim. Bem não, muito bem. Um exemplo? Tirei a média mais alta do país na redação do ENEM do ano que fiz a prova (ele ainda era um dia só e nem era tão importante assim naquela época). Já a prova em si, digamos que eu estava na média e olhe lá.

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O tempo foi passando e desde que comecei a faculdade de tradução, eu mudei. Eu me esforço e quando não consigo ir extremamente bem, me frusto e muito. Não estou satisfeita em tirar notas “pra passar” como fiz a vida inteira. Se isso acontece, eu fico realmente chateada e frustrada e com raiva. Vem sempre aquele pensamento “por que eu estudo se não consigo ir realmente bem?”. A pior coisa é que na hora das provas, a senhora ansiedade toma o controle de mim e eu não consigo fazer nada direito porque ela não deixa. É um ciclo e é um ciclo terrível.

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Ser perfeccionista não é ter tudo arrumadinho, nem ser melhor que os outros — como já vi muita gente acusar — e sim, ser o melhor para si mesmo. As nossas expectativas são astronômicas e não alcançá-las é uma frustração enorme. A sensação é de falha, mesmo que esteja na média, mesmo que seja uma nota considerada boa. Um perfeccionista sempre espera o melhor de si, mesmo que essa meta seja difícil (ou até impossível). Um exemplo pessoal: eu passei em todas as matérias da faculdade esse semestre sem precisar fazer o exame, mas sinto como se tivesse falhado porque minhas notas foram (quase todas) 7,5. Só meio ponto acima da média. A única nota que me fez feliz foi um 9,5. Fiquei feliz por ter passado, mas essas notas me decepcionaram e frustraram demais.17f5c1135e7714ec103b2ce9e32ef27c

Eu nunca enfrentei meu perfeccionismo. No máximo, isso acontecia quando estava escrevendo algum texto. Normalmente, eu sempre ficava na média ou abaixo dela sem nem mesmo perceber. Só fui notar isso depois de encarar o perfeccionismo nos olhos. Eu nunca gostei de esportes (salvo alguns, mas ainda assim sou preguiçosa demais para fazê-los, haha), mas também sempre fui muito competitiva. Ou seja, eu sei que não sou boa, que meu corpo não parece ter sido feito para movimentar-se dessa forma, então, eu simplesmente não me esforço.

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No ballet era a mesma coisa. Eu não conseguia acompanhar algumas coisas direito, então fui me tornando a bagunceira da sala, aquela que ninguém espera muita coisa mesmo. Com o tempo, a dificuldade aumenta e você precisa tornar-se mais flexível e eu nunca sequer consegui alcançar as mãos nos pés pra alongar (e eu só fui descobrir o motivo disso agora, minha coluna não funciona do jeito normal para ter essa flexibilidade e eu nunca vou conseguir alcançar meus pés por causa disso), mas eu sempre tive um bom equilíbrio e fui uma das primeiras a enfrentar a sapatilha de ponta (sem ponteira — as leitoras que já experimentaram essa tortura vão entender o sofrimento, haha). Eu amava ponta, apesar da dor, porque não era difícil para mim. No ano que resolvi me levar o ballet a sério e me tornar uma bailarina mais ou menos decente, eu desisti. Porque eu nunca seria boa, pelo menos não do jeito que eu queria ser. O que dói é que eu ainda amo dança e amo ballet clássico, mas jamais conseguiria voltar a fazê-los porque eu tenho minhas limitações (a falta de flexibilidade em especial) e não sei como lidar com elas.b620d4718469c662b44bc8bedf52f7fa

Uma pessoa perfeccionista pode até competir com os outros ao seu redor, mas seu maior inimigo é ela mesma. As metas traçadas quando não alcançadas tornam-se verdadeiros pesadelos; o fato de não conseguir superar a si mesma também é bem complicado. Viver num mundo onde sempre precisa ser o seu melhor é complicado, assim como a auto-sabotagem por causa dele. O pensamento que é melhor falhar do que tentar e não alcançar suas metas acaba prejudicando muito e a verdade é que não deixa a gente ser feliz com as coisas que faz por causa disso. Além disso, a ansiedade junto dele pode atrapalhar ainda mais e o medo de falhar multiplica por mil.d36e079f3e4b19af9a7596a2f0c4b49e

O perfeccionismo está ligado a ter maior probabilidade de depressão e está relacionado aos transtornos alimentares, baixa auto-estima, pouca auto-confiança. Os perfeccionistas também tende a não cuidar de si mesmo por estar focado naquilo que se está fazendo e por isso, são mais propensos a diversas síndromes de dor e fadiga crônicas e muitas vezes, tem seus sintomas confundidos com o do TOC (transtorno obsessivo compulsivo). O perfeccionismo, em extremo, pode estar relacionado ao suicídio, o grande exemplo disso é a autora Sylvia Plath.

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Visto de longe, o perfeccionismo pode ser enxergado como chatice, exigência. Trabalhar com alguém perfeccionista quando não o é, torna a pessoa um tanto insuportável na maioria das vezes. Mas na realidade, ela está sofrendo e o medo de pensar que algo não saí do jeito que criamos na nossa cabeça, ele é paralisante e pode fazer com que, se você for auto-sabotador, torne-se alguém preguiçoso, que não se esforça porque a falha sabendo que não se esforçou é menos pior do que tentar e não conseguir alcançar a meta que você estabeleceu para si mesmo ou até mesmo falhar tendo se esforçado e com a sua meta traçada…isso é o pior pesadelo de uma pessoa perfeccionista.

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Ser perfeccionista é uma constante. Para não se auto-sabotar, para aceitar que falhas existem e fazem parte da vida, para entender que nem tudo precisa estar perfeito. Não é exagero. Não é ser chatx, não é ser preguiçosx porque não se esforça quando o medo de falhar é tão grande que é melhor deixar tudo para lá do que se esforçar e falhar. Lidar com o perfeccionismo é uma batalha diária e muitas vezes sufocante.

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Se você conhece alguém perfeccionista, espero que tenha visto a pessoa com outros olhos, porque acredite, ela sofre bastante. Se você é perfeccionista, você não está sozinhx, falhar não é a pior coisa do mundo e a má notícia é que você, nós, ainda vamos falhar muito e que nem sempre as coisas vão sair do jeito que esperamos, que queremos. E a verdade é que o mundo não vai acabar por causa disso, apesar de parecer que sim. Você vai superar suas falhas e vai alcançar inúmeras vitórias e alegrias. Você não está só. ❤

Fontes usadas no post: Brasil Escola, Revista Época (11/01/2008)

Fonte das imagens: Pinterest

ASSINATURAFLAVIA

3 comentários em “O que é ser perfeccionista

  1. Ora, ora… parece que eu me encontrei nesse post. E eu achando que eu sofria de TOC kkkkkkkk não sei qual dos dois é pior. Obrigada por deixar tão claro o que é o perfeccionismo, agora vou deitar na cama e esperar pela minha morte. Bye, world!

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  2. Sobre se auto-sabotar: faço muito. Deixo de fazer coisas pois acho que não serei boa o suficiente, mesmo que outras pessoas digam que serei. A coisa que mais quis no mundo desde criança é ser Médica Veterinária, e quando eu consegui entrar na faculdade a felicidade durou pouco, e logo deu lugar à uma grande duvida: ‘será que eu vou dar conta?’, isso me apavorava (as vezes ainda me incomoda), me esforço pra pensar que SIM, EU VOU CONSEGUIR! Horrível também trabalhos em grupo: sempre sou a chata que verifica o que os outros fazem, afinal: se não sair perfeito do jeito que quero, me sinto inteiramente responsável. Enfim, ótimo texto, pelo fim dos esteriótipos sobre perfeccionismo! ~Luh

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    1. Oi Luh! Poxa, fico triste em saber que você sofre com isso também! Mas eu tenho certeza que você vai conseguir tudo que deseja e lembre-se que quando as coisas não saírem do jeito que você planejou, não é o fim do mundo! E tenho certeza que você será uma ótima veterinária, estou torcendo por isso! ❤
      Beijos!

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