Aleatoriedades

Vamos falar sobre tradução?

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Há mais ou menos um mês atrás, eu perguntei no Instagram se os leitores daqui que me seguem por lá estariam interessados em ver um post falando um pouco sobre tradução. Para minha enorme alegria, eu não só tive muitas respostas, como elas forem positivas! ❤

Por isso mesmo, esse post nasceu. Eu demorei um pouquinho mais do que pretendia para fazê-lo porque resolvi unir o útil e o agradável e usá-lo pra estudar, afinal, uma das abordagens que vou falar aqui é justamente a matéria da minha (espero) última prova do semestre!

Com isso, deixa eu explicar o seguinte: neste post, minha abordagem é a visão da Rosemary Arrojo, uma das teóricas da Tradução que não só foi o foco do meu semestre na faculdade, como também a que eu mais me identifiquei com os estudos, no caso, ela vê a tradução com os olhos da Desconstrução. E o mais legal de tudo: ela é super famosa na área no âmbito internacional e é brasileira. E mulher. Vamos parar um segundo para comemorar isso, haha.

Mas vamos ao que interessa, não é mesmo? Vamos falar sobre tradução?

Traduttore, traditore

O trocadilho italiano acima resume muito bem a relação de muita gente com a tradução. Quantas vezes a gente já não ouviu a frase de quem costuma ler bastante e consome literatura na língua em que o livro foi escrito que é basicamente uma variação do seguinte: “eu leio porque nada se compara ao original, a tradução sempre deixa de trazer diversas coisas, por isso ela nunca vai ser tão boa quanto ao livro original”?

Eu mesma já tive minha cota de dizer isso algumas boas vezes. No entanto, desde que comecei a estudar tradução e durante as aulas de teoria, minha ideia começou a mudar completamente — por isso, só queria deixar bem claro que o motivo de eu quase não consumir literatura traduzida atualmente não tem nada a ver com esse fato, mas sim porque eu preciso melhorar meu inglês o máximo possível, não aguentar esperar alguns livros que quero ler serem traduzidos ou correr o risco de nunca terminar uma série porque as editoras desistiram de publicar por aqui e outras questões de experiências que tive, mas que não vêm ao caso, só quero dizer que não tem nada a ver com a tradução em si ou por pensar que o “livro original é melhor”, haha. Dito isso, podemos continuar.

Na realidade o que acontece aqui é uma grande valorização ao que chamamos de texto original e a desvalorização do próprio tradutor que ocorre há muito tempo e até mesmo vinda dos próprios profissionais da área. A ideia de que um texto traduzido nunca será “tão bom quanto o original” está impregnada tanto, que até os Estudos da Tradução falam isso. Nós, tradutores, somos desvalorizados e invisíveis.

A prova disso: quantos de vocês sabem o nome dos tradutores dos livros que leram? Sabem a editora com certeza; o autor, muitas vezes. Mas o tradutor…se não forem de livros como Harry Potter ou Senhor dos Anéis, eu aposto um chocolate que muita pouca gente diria que procura saber quem foi que traduziu o livro que tem em mãos. Estou certa?

Mas quantas pessoas já lembraram do tradutor, quando pegaram um livro ruim para ler? Não um plot mal construído, mas mal escrito? Com erros de ortografia, frases mal construídas… enfim, erros gramaticais?

A verdade é que a gente lembra mais do tradutor nos momentos ruins do que nos bons. Isso sem contar que, zapeando por esse mundo booknerd da internet, eu vejo muita gente enaltecendo editoras quando gosta de um livro e poucas vezes falando até da pessoa que escreveu o livro, imagina falar do tradutor? Lembrando que eu mesma me considero ter sido parte dessa galera até muito pouco tempo atrás! Pois é, esse foi um dos motivos de eu querer escrever tanto esse post, lembrar vocês não só da existência desse profissional, como também da importância dele.

Quando você fala ou pensa da “escrita de um autor” em um livro traduzido, na realidade está falando da escrita do tradutor. Porque foi essa pessoa quem fez as escolhas da palavras e como as colocou no texto que você tanto gostou. Sim, a ideia nasceu da cabeça do autor original, mas o responsável por transformá-la em algo tão maravilhoso na sua língua não foi ele, foi o tradutor.

Traduzir é muito mais do que um transporte de conceitos ou até mesmo palavra por palavra. Um tradutor, na hora de fazer seu trabalho tem que pensar em muitas, muitas coisas. Desde o público para o qual está traduzindo, até como o leitor da língua para o qual traduzindo poderia entender os aspectos daquele livro. A gente muitas vezes tem que lidar com culturas diferentes e sempre temos que pensar naqueles que não entendem uma palavra de inglês ou conhecem a cultura de onde vem o texto original. Por isso, vocês podem encontrar mudanças drásticas em uma tradução, mudanças que funcionam melhor para o povo no qual está traduzindo o texto e algo muito importante também, na época em que ele foi traduzido.

Vamos dar um exemplo real? Harry Potter. Quantos de vocês são fãs da série e não se conformam com a tradução dos nomes nos livros? Quantos aí metem o pau na tradução por causa disso? Afinal, o que custava manter os nomes originais?

Agora, vamos pensar um pouco no ano em que o primeiro livro foi lançado e no público alvo dele. A primeira edição daqui saiu nos anos 2000 para o público infantil. Há 16 anos atrás, os tempos, acreditem, eram um pouco diferentes e as crianças não tinham o acesso a internet que têm hoje. Lia Wyler escolheu aproximar o livro o máximo possível do mundo das crianças brasileiras, já que nem todas tinham acesso à língua inglesa fácil como atualmente. Os nomes em português, para as crianças da época, eram de fácil identificação e entendimento.

Existem tantos detalhes em relação a tradução de um texto, livro etc. que é difícil de imaginar. A gente acha que é um trabalho simples, que “qualquer um pode fazer”… eu realmente comecei o curso achando que era uma coisa bem mais simples do que realmente é. Eu mesma tenho que trabalhar todo dia para enxergar o tradutor de uma forma diferenciada do que antes de começar a faculdade e eu espero poder fazer com que alguns de vocês também nos vejam de forma um pouquinho diferente, hehe.

Há quem diga que um tradutor jamais vai conseguir entender o que um autor do texto original queria dizer quando o escreveu, qual seriam seus planos para a história etc. etc. Mas sabe de uma coisa? Ninguém além da pessoa que escreveu um texto jamais vai conseguir saber todas essas coisas, sendo o tradutor ou não. A partir do momento que um texto foi escrito e dado para alguém ler, deixou de ser algo que “pertence” à pessoa que o escreveu. Porque a partir desse momento, será lido e interpretado. Além do mais, cada pessoa tem uma vivência na vida e recebe o texto de determinada forma.

Isso acontece na tradução também. Muitas vezes, algumas traduções são consideradas melhores do que outras pelas pessoas (quando temos a nossa favorita, por exemplo), não porque ela realmente é melhor e sim porque ela passa as mesmas ideias que você tem do texto. A verdade é que quando lemos qualquer coisa, a interpretamos e a mesma coisa acontece com um tradutor fazendo seu trabalho, ele repassa sua própria interpretação de um texto original.

Espero que tenha conseguido mostrar um lado diferente da tradução que vocês ainda não conheciam ou não tinham parado para pensar! E que tenham gostado do post! Se quiserem mais posts sobre o assunto de uma forma menos teórica ou sobre a própria faculdade de tradução, não hesitem em pedir por aqui ou pelas minhas redes-sociais que ficarei super feliz em fazê-los! ❤

Fonte das imagens usadas: Pinterest & Pinterest

ASSINATURAFLAVIA

4 comentários em “Vamos falar sobre tradução?

  1. Olá Flávia! eu gostei muito deste post e tenho adorado acompanhar mesmo que por pouco tempo este lindo blog♥ Eu tenho pensado bastante sobre este assunto das traduções e foi muito bom ler/ver um pouco mais o lado do tradutor. Suas palavas me fizeram refletir bastante, obrigada!!!
    beijos, Adriele

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    1. Oi Adriele! Poxa, eu fico *muito* feliz em saber que o meu post tenha feito você pensar no tradutor e que tenha gostado do blog e espero que também do post! Espero ver mais seus comentários por aqui, prometo que não vou demorar tanto assim pra responder, haha
      Beijocas!

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  2. Tenho que confessar que eu sou chatérrima quanto a tradução de livros e fico super puta quando eu vejo erros ou passo por alguma expressão que, para mim, poderia ter sido escrita de uma forma melhor. Mas, como vc disse, esse pensamento de que a tradução não será tão boa quanto o texto original, está realmente impregnado, e acho que será um pouco difícil relevar algumas coisas, porém após ler este post vou tentar o meu melhor para ler além (mesmo eu achando que erros ortográficos são pura falta de atenção, claramente, não só do tradutor).

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    1. Olá Priscila! O preconceito com a tradução é grande, mas de tudo que você disse no comentário, a maioria das coisas que se incomodam são muito mais culpa de editora ou do revisor do que com o tradutor. Porque mesmo os livros originais possuem e aos montes, inclusive, algumas traduções são melhores escritas que o original porque o autor muitas vezes só é bom de colocar e organizar ideias ao invés de escreve-las.
      Beijocas

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