Aleatoriedades

Minha aparência não interfere em quem sou ou no que gosto

Ontem publiquei uma foto no meu Instagram com uma legenda ironizando algo que há tempos me incomoda, mas que nunca chegou a um ponto como agora. Digamos que foi a gota d’água e então, me vi com a necessidade de vir conversar com vocês sobre um assunto bem complicado e enraizado na sociedade (brasileira e mundial): o machismo.

Apesar de estar focando em uma das faces desse assunto, queria abrir um parênteses para comentar que coincidentemente estamos vivendo um período em que ele está muito presente na mídia e redes-sociais, especialmente por causa daquela atrocidade do estupro coletivo. Não é sobre essa questão que eu vim falar, mas é que simplesmente não podia deixar de dizer que espero, que com tanta atenção para a mídia, o Brasil passe a dar mais importância para as vítimas de estupros, assim como também pare de culpá-las por esse crime. Porque a culpa nunca é delas. A violação de um corpo não é culpa de ninguém além do babaca que resolveu fazê-lo!

Fonte: http://www.revistafriday.com.br/a-culpa-e-sempre-da-vitima

Mas enfim, dito isso — porque não teria como fazer um post falando sobre machismo, sexismo sem citar essa atrocidade —, vamos começar a contar exatamente como resolvi escrever, sobre o que exatamente eu vim falar (já que infelizmente é uma coisa muito ampla) e explicar o que quero falar exatamente. Vamos lá?

Há algumas semanas atrás, aconteceu a Book Expo America (BEA) — uma exposição voltada para o mercado literário estadunidense que acontece anualmente, mas que envolve pessoas do mundo inteira e é voltada para direitos literários internacionais e nacionais, para fãs de livros comprarem exemplares e conhecerem novos (lá há também a distribuição de ARCS, as cópias não finalizadas dos livros), autógrafos etc — em Chicago e pouco tempo depois, um crítico literário chamado Steve Donoghue gravou um vídeo para o canal dele no Youtube, no qual ele criticava algumas coisas relacionadas ao evento, em especial os Booktubers (gringos) e a relação deles com os autores, entre outras coisas.

Até aí normal e vou confessar que algumas das coisas faladas no vídeo chegaram a fazer sentido em alguns aspectos, assim como concordei com algumas outras. Mas claro, ninguém pensa igual a ninguém e as respostas ao que foi falado começaram e diversos Booktubers se pronunciaram sobre o assunto (leia aqui e aqui alguns posts em inglês relacionados à grande questão e que explicam um pouco como tudo começou) e Donoghue simplesmente mandou a seguinte coisa em resposta às manifestações nos comentários do vídeo:

Quer dizer, eles consideram vocês leitores? Quando você assiste os vídeos bem iluminados e filmados com elxs sentadxs lá, usando blush na frente de luzes de estúdio, você realmente consegue imaginá-lxs sentados com um livro, lendo alegremente e sem focar em nada mais? Eu realmente não consigo imaginar isso.

Nota: escolhi ocultar o sexo na hora de passar para o português por conta de uma fala posterior de Donoghue que vocês vão ver abaixo. 

Foi aqui que a coisa toda morreu para mim e que fogo começou a sair dos meus olhos.

Porque, o que até então tinha feito algum sentido sentido, mostrou-se uma grande besteira sexista velada. Depois disso, ele se defendeu afirmando que aquela crítica, na verdade foi feita não apenas às meninas, mas sim a todos os Booktubers, que a citação do blush não significava que estava referindo-se às mulheres apenas. Independente do que for, se a ideia era ou não atingir as meninas/mulheres-leitoras, Donoghue deixou claro que o fato de usar maquiagem e se arrumar e/ou se preocupar com uma boa gravação, significa automaticamente que a pessoa não gosta de ler porque isso não condiz com a visão dele de um leitor ávido.

Como resultado, diversas meninas (inclusive eu) aderiram à campanha #fakereadergirls, que além de se voltar contra o blogueiro, também critica a visão estúpida de que um leitor(a) deve seguir um “padrão” o qual muitas vezes  defende ideia que maquiagem ou coisas do tipo definem uma pessoa como um leitor falso — fora a ideia maluca de Donoghue que acrescenta o fato de uma boa iluminação e cenário também são sinais que a pessoa não gosta de ler.

O grande problema é que a coisa vai muito além desse único cara agindo e pensando dessa maneira babaca. Por isso, o motivo principal de eu ter me pronunciado pelo Instagram com a hashtag é justamente em relação a todo esse sexismo em cima de diversas meninas e mulheres sobre seus gostos e maneiras de se vestirem. Uma visão extremamente machista que não apenas é muito forte, como também propagada, no caso do mundo literário pelas próprias pessoas que deveriam quebrar essa barreira: as próprias autoras.

Um choque, não? E por que elas?

Eu explico! Para isso, dou como exemplo as personagens da literatura YA: quantas protagonistas são aquelas que não saem do básico Converse e jeans? Ou se for de época, não gostam de vestidos e coisas do tipo? O que não teria nada de errado se isso não acontecesse numa frequência assustadora ou se os nêmesis (e até mesmo as vilãs) não fossem justamente as ditas “patricinhas” e totalmente o oposto delas, de forma que o gostar de se arrumar, de coisas que o inglês chama de girly (porque acho chamar de “femininas” também apelativo para o lado sexista) seja transformado em algo completamente negativo e que essas meninas, não tenham capacidade de se tornarem as heroínas porque são más, fúteis e coisas do tipo.

personagens
Wow, parece que minha namorada atual é tão má quanto popular (aka MUITO). Deveria saber, já que ela usa salto e tem o cabelo loiro perfeito.
personagens_2
Se você for uma menina que gosta de moda, maquiagem e outras coisas “girly”, você provavelmente não é a personagem principal. Na verdade, você provavelmente é a vilã.

Aqui fica a minha pergunta: por que temos tantas personagens com essas características e poucas que mesclam as duas coisas ou que sejam as “patricinhas”?

Com essas personagens, passamos a ter uma visão de que gostar de se arrumar é algo negativo e nada além de fútil. Praticamente a mesma visão de que as pessoas que usam maquiagem, se arrumam etc não “podem” gostar de ler, como o Donoghue deu a entender.

Partindo dessa mesma visão, que tal falarmos sobre as meninas e mulheres que gostam de games, quadrinhos e esportes, por exemplo? Elas não só sofrem ameaças de homens, como também sofrem por ter que passar boa parte do tempo tentando provar que elas realmente gostam de tal assunto só pelo fato de serem mulheres? Agora vamos acrescentar aí as que gostam de maquiagem e moda. Dá para imaginar as críticas? E não apenas masculinas, como também de nós mesmas, porque infelizmente diversas vezes nós mulheres agimos de acordo com todo esse sexismo todo.

Essa é uma das músicas que mais gosto da Taylor, mas outch, ela ilustra bem essa visão – fonte: tumblr

A verdade é que vivemos em um mundo onde a mulher ainda não só tem não a “permissão” de gostar de certas coisas, como também é julgada por coisas extremamente absurdas que praticamente não fazem o menor sentido: por esses gostos, algumas são julgadas por serem “ menos mulheres” por causa disso, assim como também são julgadas pelas roupas que usam ou deixam de usar ou a maneira de agir.

Tudo segue um enorme padrão estereótipo: você gosta de coisas nerds ou esporte? Não pode ser girly — fora aquela necessidade toda de provar constantemente que sim, você gosta dessas coisas. Se além disso, ainda coloca maquiagem, por exemplo, imediatamente esses gostos se tornam falsos e você faz isso apenas para aparecer. Quem nunca passou por isso?

Está na hora de nos desprendemos dessa visão machista que não apenas nos cerca, como também estão em nossas cabeças sem que nem percebamos. Quantas vezes não julgamos uma menina pelo que ela vestia ou deixava de vestir ou até mesmo pelos gostos dela? Isso acontecia muito comigo, mas então, abri os olhos e comecei a questionar o motivo e também percebi que não era minha culpa: eu cresci numa sociedade machista que sempre ditou a maneira que eu deveria ser e/ou gostar e claro, isso acabava refletindo em minhas reações para com as outras pessoas.

Isso acontece com você, comigo e com todo mundo. Porque a sociedade é machista e fazemos coisas que nem percebemos. No entanto, você não é uma pessoa ruim por ter algumas atitudes e pensamentos assim, já que a coisa está tão enraizada. Basta perceber essas atitudes e que elas não são legais e começar a se desprender desses esteriótipos que apenas nos atrasa.

Por isso, temos que nos lembrar que podemos ser quem quisermos, gostar do que quisermos e que a maneira a qual nos vestimos ou agimos não tem absolutamente nada a ver com essas coisas.  

Isso não significa claro, que devemos parar de ler os livros cujas personagens gostam de tênis e jeans e que as “vilãs” são as patricinhas, mas sim nos forçamos a enxergar as coisas diferentes e aceitarmos que há muita gente nesse mundo, muita gente diferente e que elas são quem são sem se prender ao que um dia a sociedade ditou que deveriam ser.

Nós mulheres podemos ser sem quisermos e gostar do que quisermos! Quem está comigo?

ASSINATURAFLAVIA

5 comentários em “Minha aparência não interfere em quem sou ou no que gosto

  1. Fla, concordo com tudo o que você disse! Acho isso um saco, já que cada vez que eu digo que estou em dois blogs, um de moda e outro literário, as pessoas parecem achar que são coisas tão “opostas” e como é que eu posso ser esses dois tipos de blogueira ao mesmo tempo? Eu tenho direito de amar vestidos e saltos altos ao mesmo tempo que tenho livros e mais livros enfiados em cada canto livre do meu quarto. Ser feminina não é sinônimo de ser burra ou sem cultura. Nós temos o direito de ser os dois!

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  2. Se eu ganhasse R$ 1,00 por cada vez que eu tive que explicar que eu gosto de video games, hqs, mangás e livros, mas também sou viciada em maquiagem, eu já teria dinheiro suficiente pra construir a minha própria Hogwarts e estaria vivendo longe desses trouxas.

    Mas, acho que pior do que ouvir um cara dizendo que aposta que eu não leio hqs e que eu gosto do Capitão América, por exemplo, só porque ele é um cara lindo no cinema, é ouvir esse tipo de coisa de outras mulheres. E, infelizmente, hoje em dia eu recebo mais comentários desse tipo vindo delas do que dos próprios caras, o que é muito triste =/. “Você não deveria fazer isso, é coisa de homem”. Oi? Em que século eu estou mesmo?

    Esse estereótipo (bom, qualquer estereótipo, na real) é algo tão terrível, mas tão “naturalmente” impregnado na mente das pessoas que, às vezes, elas nem se tocam quando estão falando essas asneiras e depois fazem discursos atrás de discursos tentando se defender – o que é o caso do Steve Donoghue, eu acredito – e isso é o pior de tudo, porque esse tipo de comentário não deveria se quer passar por nossa mente e é pior ainda quando passa por algo tão simples e natural quanto um “bom dia”. Também acho que é por isso que a galera fica falando que hoje em dia tudo é ofensa e rola uns xingamentos tipo “feminazi” pra cá e pra lá. Não é questão de “o mundo estar perdendo a graça”, como eu já ouvi muito por aí, a questão é que hoje as pessoas observam com mais atenção e nós tentamos lutar contra esse “pensamento” cortando o mal pela raíz.

    Parabéns pelo post <3, é sempre incrível ver as pessoas se importando com essas questões, especialmente quando é alguém que admiramos.

    Beijo!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Não poderia concordar mais. É um saco quando as pessoas vem julgar a gente porque gostamos de determinada coisa. Meu quarto é cheio de Funkos e pelúcias e as pessoas vem falar que eu sou infantil. Cara NÃO. Fodas se eu tenho 25 anos. Eu não estou velha para coisa que eu gosto, que me deixam FELIZ. Eu gosto de coisas fofas, videogames, bonecos, Harry Potter, YA e fodas de quem achar ruim. Povo julga demais. Eu só não concordo em achar que a música da Taylor trata de chamar a outra de biscate… foi uma comparação de “eu sou mais parecida com você e com seu jeito”. “Dreaming about the day when you wake up and find / That what you’re looking for has been here the whole time / Can’t you see that I’m the one who understands you” Tá vendo? É só uma questão de quem foi “feito pra você”. Talvez a gente já achar que se trata de chamar a outra de biscate seja o verdadeiro problema. Porque não pode ser só uma comparação de jeitos? Eu não vejo dessa maneira, entendo quem vê, mas não concordo.
    Bom, só acho que as pessoas deveriam se preocupar mais com seus próprios problemas e em como serão felizes do que atrapalhar a felicidade do outro 😉
    Eu parei de me importar com isso com custo, mas consegui!!!

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    1. Oi Nanda! Passo pelo mesmo drama que você nessa questão do quarto, parece que depois dos 15 anos a gente precisa ter tudo em preto e branco e ler jornal, gostar de qualquer outra coisa é errado… Mas como você disse, parei de me importar também, não faz o menor sentido!

      Sobre a música da Taylor, o sentido que a Flavia quis dar no post foi mais a questão de que não importa se você gosta de se arrumar ou não, mas sim que pode ser como quiser, isso não interfere no seu gosto pessoal.

      Muito obrigada pelo comentário, adorei!
      – Renata.

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